ESTE É O TEMPO em que a cidade morre de tristeza nos meus olhos. Nem uma folha ou fio de luz mexem nas ruas por onde passo. Além, a noite afogando a dor nas suas vestes escuras de abandono. Paro, a ver se alguém me pergunta ao que venho, ao que vou. Mas não. A cidade vive submersa no seu estertor.
terça-feira, novembro 09, 2010
NÃO POSSO pedir a ninguém que me substitua nesta tarefa de escrever. Não posso dizer "toma aqui o meu lugar enquanto vou ali dormir uma soneca". Não posso descansar deste fluxo de ideias constante como uma condenação. Ninguém me pode substituir no encargo de escrever uma criança a chorar na sala de espera de um hospital.
segunda-feira, novembro 08, 2010
ENCONTRAR na fila para a caixa registadora do hipermercado uma pessoa que estudou comigo na juventude, tomar café a pensar no eco das suas palavras, ouvir o ruído vago de passos e carros de compras, observar a vida numa concha de infindas partículas de tempo, sair para o sol, deslizar na estrada com Ceef e a sua trompete. Ser outono.
domingo, novembro 07, 2010
PERGUNTO-ME cada vez mais se alguma vez terminarei estes apontamentos. Entraram de tal forma no meu quotidiano que já não sei se conseguirei sair deles, se conseguirei deixar de os pensar, escrever, sentir, viver, seguir com atenção a qualquer momento do dia. Sem estas palavras sistemáticas, não imagino em que sombra me protegeria.
sábado, novembro 06, 2010
HÁ DIAS em que as formas rodam mansamente. Dias nem longos nem curtos, finos, de uma só cor, agudos, sem sinais particulares. Dias em que uma voz me acompanha pausada e densa para me contar o sentido das coisas inalcançáveis. Dias secos, leves, lúcidos, transbordantes de buganvílias no instante de bater cada hora.
sexta-feira, novembro 05, 2010
É FÁCIL DESAPARECER de um lugar e continuar lá como se nada tivesse acontecido. Basta não conviver, não aparecer nos cafés, nas lojas, nos espaços públicos. Ao não sociabilizarmos, deixamos a ideia de que residimos em outro sítio e de que só pontualmente surgimos onde realmente vivemos. Podemos chegar ao ponto de andar por todo o lado e não nos verem.
quinta-feira, novembro 04, 2010
NINGUÉM nos pode socorrer. Somos arautos do egoísmo, da violência, da morte. Destruímos o sol e a alegria que traz a esperança. Não merecemos amanhecer todos os dias. Que Ashtiani nos encomende ao seu Deus. Em nome das pedras que se fizeram para amar. Caem sobre nós todas as injustiças e pecados da Terra.
quarta-feira, novembro 03, 2010
FULGEM VERDES os teus olhos no mar que avisto. E, se não há mar, é nos teus olhos que o procuro, ainda, no seu fundo de transparências sinuosas. Em que outra dimensão teria possibilidades de o encontrar? E, se acaso não tenho os teus olhos, Tenho o mar à minha frente sem fim, onde recebo as tuas ondas de frescura brava.
terça-feira, novembro 02, 2010
A ARTE ROMPE fronteiras, supera limites, é mal educada, derruba medos, refaz espaços, propõe ideias. Interroga-nos, perturba-nos, agita-nos, repensa-nos, redimensiona-nos, arrasa-nos. Não permite o meio termo, não contemporiza, não hesita, não recua, não olha para os lados. A arte destrói tudo à sua passagem.
segunda-feira, novembro 01, 2010
PARAR NUMA ESTAÇÃO de combustível em dia feriado, de manhã, para escapar ao determinismo do tempo. Entrar, pedir café, vaguear com os olhos pelas prateleiras e compreender os sumos, bolachas, pastilhas elásticas, jornais, revistas. Reflectir sobre a função da máquina Multibanco. Ouvir a música incansável brotando do tecto. Perdoar tudo.
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