domingo, junho 20, 2010

NÃO PERCEBO por que razão quem cria algo se há de preocupar em que o seu trabalho seja apreciado. Apreciado por quem? Quem pode estar disponível para descer às profundezas de outrem? Ser apreciado é prejudicial a quem cria porque condiciona a sua forma de estar e de pensar. A arte será tanto mais livre e independente quanto menos interferências tiver.

sábado, junho 19, 2010

QUANDO NÃO TENHO grande ocupação, ponho-me a criar nomes que não pertençam aos géneros masculino ou feminino. Nomes que soem a nomes de gente, mas que fujam aos estereótipos que reduzem e amarfanham a riqueza da pessoa. A regra primordial que sigo é evitar terminações em “o” ou em “a”. Por exemplo, Laur em vez de Laura ou Lauro.

sexta-feira, junho 18, 2010

HÁ DIAS EM QUE OS SÍTIOS para onde olho me surgem cheios de vibração, num frenesim imparável, como se o mundo andasse em correria permanente por trás de tantas vidraças, estradas, muros, jardins, edifícios, corpos esvoaçantes. Como se houvesse uma luz permanente no eco dos ossos que me acompanham desde os abismos do tempo.

quinta-feira, junho 17, 2010

SEMPRE QUIS SER quem estou a ser, sempre quis sentir o que estou a sentir, mas não sabia que aconteceria desta maneira singela, natural, como a luz de passagem suave pela tarde. Não sabia deste corpo doce de réptil capaz de reviver em mim cem vezes, não sabia destes olhares secretos vindos do fundo das águas felizes…

quarta-feira, junho 16, 2010

A CLARIDADE É a música suspensa no centro da noite. Quando todos dormem, sigo o destino de pular, dançar e fruir plenitudes. Não incomodo, não deixo rasto. Só corro entre edifícios, na expectativa de encontrar o caminho das urzes que antevi em delírios palpáveis.

terça-feira, junho 15, 2010

TÍTULOS de romances que, de uma assentada, vi numa livraria: Jogo Duplo, Mentiras no Divã, A Fada do Lar, O Terceiro Anjo, O Mapa Desaparecido, O Enigma da Sétima Tapeçaria, O Bobo, Cerimónia Mortal, Acerto de Contas, O Livro das Almas, O Roubo das Safiras, Há Mil Anos que Aqui Estou, Na Sombra do Dragão…

segunda-feira, junho 14, 2010

QUE ME ACONTEÇA o pior, menos repetir-me, menos exaurir-me. Só quero a frescura das águas, a vivacidade das fontes em cada momento, a eterna procura de significados. Quando as palavras sucumbem, a senilidade toma conta de nós e depois não há forma de se recuperar. Antes a morte. Porque esta, ao menos, acaba de vez connosco.

domingo, junho 13, 2010

A ESCRITA BROTA em mim na apagada tristeza dos montes cobertos. É o que sou. Nada de corpos, sensibilidades, espíritos, consciências ou afins. Tornei-me o imparável gorgolejar das sílabas que alimentam as ervas baixas do olfato. Adormeço com vibrações de palavras na aventura de sintaxes e palimpsestos. E ressuscito entre parágrafos.

sábado, junho 12, 2010

ORA ESTOU completamente só, ora tenho plena companhia. Passo temporadas sem ver nem ouvir ninguém e temporadas em que LMP anda por perto, tocando-me, sorrindo-me, falando-me. No primeiro caso, esvazio-me de amor, no segundo encho-me. É como estar morto num dia e vivo no outro. Como ser cão hoje e rei amanhã.

sexta-feira, junho 11, 2010

CRESCI com a sua dor diante dos olhos. A sua dor inteira, sem tréguas, entre quatro paredes de humilhações, intolerâncias, silêncios, imposições, recalcamentos, indiferenças, ausências, fadigas, discussões, egoísmos, doenças, incompreensões, ameaças, queixumes, lágrimas. Tudo doía no seu rosto. Essa alvura fina que permanece.