quinta-feira, junho 10, 2010

PARA ONDE FORAM os risos que nos criaram e trouxeram esperança? Para onde a ventania das perguntas, o desalinho das ideias, a febre do que faltava viver? Recordo-me do teu brilho na amizade, da tua companhia sem limites. Eram nêsperas na madrugada quando chegávamos ao mercado e o cacau fumegava para nos receber. Tão simples e tão enterrado.

quarta-feira, junho 09, 2010

A LUZ É o milagre do negro que se rebela, sem nada proferir, sem nada justificar, para que a compreensão dos elementos não seja negada. É o fogo inteiro das horas que se congregam, a paciência infinita, o nexo cabal, o poder abrindo-se num sopro ungido. Ou a rasura breve de um dedo que se aproxima.

terça-feira, junho 08, 2010

CERTA VEZ, Merem disse-me que morreria dentro de pouco tempo. Fixei os seus olhos e logo baixei os meus. Tentei reagir como se não acreditasse no que me dizia, mas a sua voz era calma, dorida, cansada. Disse-me o que tinha a dizer, combinou coisas comigo, e pediu-me que sepultasse o seu corpo em Lisboa, assim evitando a despesa de o transportar para os Açores.

segunda-feira, junho 07, 2010

NÃO SEI QUE SERÁ DE NÓS este Verão. Os dias revolteiam de ventos agrestes, as temperaturas sobem e descem, as expectativas somem-se nos horizontes, as perguntas atropelam-se de dúvidas. Virá o tempo de Julho e virá o tempo de Agosto sem que a montanha cresça nos sonhos que ansiamos. Corremos o risco de perder a alma do mar.

domingo, junho 06, 2010

HÁ DIAS EM QUE DEIXO aberto este espaço digital para ter a sensação da companhia das palavras fermentando em mim. Como se mais nada houvesse para além dessa pura espera. E também gosto de ter à mão o documento no qual costumo tomar notas que me servem de guia para estes apontamentos. Vivo assim.

sábado, junho 05, 2010

ARTE É QUANDO nos vêm cantar docemente no embalo dos lençóis assim atenuando a perceção da tragédia cósmica em que caímos, é quando nos ajeitam a almofada sob os tiros, quando nos dão beijos na fronte abafando os gritos, quando nos acariciam a face por entre respingos de sangue, quando nos fazem festas no cabelo iludindo os cadáveres….

sexta-feira, junho 04, 2010

O DIA CORRERÁ CINZENTO nos Açores e em Blagnac porque já nasceu cinzento e só cinzento se poderá manter. Com o tempo, acabei por aceitar o cinzento, adaptei-me à subtileza dos seus múltiplos tons, à sua imprevisibilidade. Passou a ser uma cor quase alegre, quase esfusiante. Como se desprovidas de cinzento as coisas fizessem menos sentido…

quinta-feira, junho 03, 2010

TUDO SE RESUME à impossibilidade de voltar atrás para soprar nos rostos dos que morreram e acendê-los no vale de silêncios em que fermentam. Chocalham murmúrios sob as nossas carnes flácidas, cintilam pensamentos. Cada viajante leva marcado nas costas o destino que uma ave escreveu quando lhe atravessou o peito de loucura.

quarta-feira, junho 02, 2010

VÃO-SE OS CORPOS na maré dos encantos que não deixa uma letra de sobra para viver. Morrem nos currais do além, em desmesura e frouxidão, como flocos de lã sem dono e sem vislumbre. Sorriem-me, mas passo adiante porque não vejo, não oiço, não suporto, não alcanço. O tempo ameaça-nos, o negrume devora-nos.

terça-feira, junho 01, 2010

OITO HORAS, manhã cinzenta, asfalto novo, carro deslizando sem barulho para que eu oiça CB dizendo adeus na sua melodia de voz pastosa. O dia começa, mas é como se nunca pudesse ter sido de outra maneira, como se tudo estivesse eternamente no início, como se este simples minuto fosse o sempre perfeito, o sempre completo, o sempre íntegro.