segunda-feira, maio 10, 2010

Como proceder para que tudo me abane, me questione, me faça avançar para o coração da cidade solitária? Nunca vi uma cidade solitária, nunca a sonhei sequer, mas é nela que vivemos sob o eco dos monstros ocultos na irrazão do tempo. Venha de onde vier, o crime inunda as nossas casas nas horas que fazem o estertor dos dias e das noites…

domingo, maio 09, 2010

As palavras são uma questão de ordem física: têm forma e cor, ocupam espaço, movimentam-se, sentam-se à mesa, comentam factos, discutem, amuam, pressionam, avançam por zonas imprevistas, desaparecem num lado e ressurgem noutro, retardam ou aceleram o que virá, protestam, ameaçam, iludem significados, fazem explodir sonhos, não vergam perante nenhum deus.

sábado, maio 08, 2010

EMR vigia-me por uma nesga de janela enquanto escrevo esta nota. Entretém-se com um pau fino rodando na boca e vai espreitando um programa de televisão que prefere. Ouço risos somados a conversas que fazem a sua delícia, mas é em EMR que fixo a minha atenção. Ao fim de quase uma hora, diz-me que vai jantar e desaparece.

sexta-feira, maio 07, 2010

Até de uma pedra tenho saudades. Daquela pedra frágil e breve que repousa junto à porta de entrada da minha casa, como se me olhasse sempre que entro e saio. Nunca lhe dou atenção, não lhe dirijo palavra, raramente a olho. Mas quando estou longe, não consigo deixar de pensar nela: pergunto-me se estará bem, se terá saudades minhas…

quinta-feira, maio 06, 2010

Olho para o relógio, de cinco em cinco minutos, à espera que EMR apareça na sua janela atravessada de oceanos. Se não aparecer, a tristeza invadir-me-á e dedicar-me-ei a tentar adivinhar o que vai acontecendo do lado da sua vida. Dou voltas pela casa, remoo possibilidades, entro e saio dos quartos e, por fim, não resisto a telefonar. Nunca resisto.

quarta-feira, maio 05, 2010

Num cemitério não há lugar a palavras, as ideias são proibidas, os sentimentos rasurados. Num cemitério devemos existir como chuva caindo mansamente nas relvas das sepulturas, devemos cantar ao de leve no som das brisas com passos cuidados de não ferir memórias. Para que a eternidade das pedras escritas se reencontre em nós.

terça-feira, maio 04, 2010

Quem disse que a escrita é para ser lida? Quem disse que deve ser mais do que aquilo que significa para quem a utiliza como expressão de vida? Quem disse que não vale por si? Para que serve alguém pôr-se a ler se não lhe restam possibilidades de influenciar o que outrem escreve? A escrita só tem relação consigo mesma. Nem sequer depende de quem lhe dá corpo.

segunda-feira, maio 03, 2010

É junto da multidão que temos oportunidade de nos conhecer. Quanto mais gente à volta, mais entramos em nós e na natureza que nos suporta. Há uns anos, num ajuntamento de milhares de pessoas que entoavam em coro a mesma canção, vivi um momento de elevação que por pouco me ia fazendo não regressar. As lágrimas nunca mais acabavam.

domingo, maio 02, 2010

Crianças em lágrimas fogem de bombas que rebentam nas suas costas como formigas gigantes raivosas. Vejo a foto a preto e branco na versão digital do jornal El País. Se fôssemos pessoas, não admitiríamos tal barbárie. Em outra notícia ao lado, deixo-me esmagar pelo sorriso de um rosto...

sábado, maio 01, 2010

EMR esteve comigo ao serão, a menos de um metro de distância do sofá no qual me sentava. Um metro de distância que eram milhares de quilómetros. Mas isso era o que menos importava. Eu queria era que EMR estivesse ali, com os seus olhos grandes mirando o longo espaço que nos aproximava, enquanto a noite ia bebendo o fulgor de cada instante.