quarta-feira, março 10, 2010

Ao olhar certas fotos, noto que têm falta de ar, falta de dimensão, falta de azul, e é difícil perceber como puderam as pessoas ter-se deixado captar pelo disparo da câmara em conversas e convívios, como puderam as ondas ter-se deixado surpreender nas rebentações de espuma, como puderam as horas ter-se deixado inundar pelo cinzento do sol…

terça-feira, março 09, 2010

Lisboa será sempre um retrato de ovelhas pastando em colinas, derrame de casas enrugadas, sol irresponsável no reflexo das janelas, brisa sobre o Tejo podre, vago delírio de fado tonto, jardins abandonados à lama, peso de fugas sem revolta, avanço de consciências com vazio, claridade algures maldita.

segunda-feira, março 08, 2010

A melhor forma de estarmos com alguém é mantermos a distância, para não nos depararmos com humores, odores, rancores, que condicionariam a nossa postura. Não estando próximos, somos mais isentos nos juízos, mais livres na imaginação, mais poderosos no afecto. Quanto maior o afastamento, maior o desejo.

domingo, março 07, 2010

Há os que escrevem sobre si e sobre as suas circunstâncias, em infindas repetições, até à exaustão; e há os que escrevem sobre quem vive em redor, quem produz laços, quem acrescenta ideias, quem faz rodar o amor do mundo. Os primeiros têm uma única voz para contar, os segundos têm muitas vozes para descobrir.

sábado, março 06, 2010

Por nós, crescem os vales de luz por escrever, sobressai a treva dos fundos que pensam, vê-se o ponteiro da febre descendo às auroras radicais. Por nós, fazem tudo o que é possível consentir e antever. Massacram os olhos, esfolam as mãos, desatam os joelhos, alongam os pés. Dimensão que tanto alcança.

sexta-feira, março 05, 2010

A organização das sociedades obriga as gentes a viverem retraídas, reservadas, temerosas. O outro inibe-as, condiciona-as, amarfanha-as. Só serão livres se escaparem aos ditames do comportamento geral, se não se integrarem, se se rebelarem, se enfrentarem o conformismo com a espada acintosa da lucidez. Para que apenas lhes reste a loucura.

quinta-feira, março 04, 2010

As pessoas caem nos lugares certos do tempo; afastam a penumbra das mágoas; descobrem fulgores no seio de escavações; crescem como tumores, docemente, sem se fazerem notar, sem terem a noção da rota que trilham; amadurecem de águas cansadas no remanso das cidades; morrem por uma decisão que acerta a conta dos dias.

quarta-feira, março 03, 2010

O fogo crescia no escuro do rasgão solitário. Nas ruas, havia murmúrios e passos constantes de gente entrando e saindo de tantos lugares que os rostos adivinhavam. Do outro lado das janelas, deslizavam sombras por entre conversas de cores impossíveis. A noite aquecia o frio rasante de Janeiro quando a primeira lágrima rolou.

terça-feira, março 02, 2010

Vermos um corpo com vida ali na cama e não fazer sentido falar-lhe, tocar-lhe, pensar o aroma açucarado da sua memória; mirarmos as suas pálpebras de silêncio reflectidas no vidro da passagem; sabermos que o desenho da chuva lá fora estreita a saída; assistirmos, em pontas de pés, como se tivéssemos asas; e de súbito levantarmos o sinal.

segunda-feira, março 01, 2010

Vais de costas para a luz em cada passo que te faz mais distante. Gritas, sem que eu te oiça, ou te dê a mão, apesar da consciência de que sigo alguns metros adiante numa corrida de flores ao teu encontro. Olhas-me e, no bulício da procura, distraio-me, caio, deixo escapar as forças que me poderiam continuar. Passaram anos e não voltámos a nascer.