sábado, fevereiro 20, 2010

Um dia, talvez, eu nasça a teu lado, para que nos seja dado partilhar a vida inteira e não estas metades que nos couberam no entardecer das coisas. Um dia, talvez, te encontre à beira do Tejo, sem reserva no olhar, para dar início à viagem que só tenho possibilidade de fazer nos teus passos. E virás comigo em riso e em música junto aos seixos pululantes no ar.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

EMR não me vê. Passa por mim e não me olha. Sem me ignorar, passa em frente, como se eu não fizesse parte do seu mundo. Vai leve e veloz, quase dançante, com sonhos na ponta dos cabelos, a caminho de algum lugar que não compreendo. Deixo-me quedar e fico de olho no seu desaparecimento, minuto a minuto, na distância desprovida de cor.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Quando chovia, MLS descia a correr as escadas para recolher a roupa estendida no fio a secar, enquanto gritava a pedir ajuda para a tarefa que sabia inglória. Dizia “ai a minha vida, ai o que vai ser de mim…” e os seus olhos saltavam na aflição de se antecipar à água repentinamente enegrecida que tombava do céu. MLS não acreditava em pássaros. Vivia destas altas pressões.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

As sílabas do teu nome olham como pedras para a dor que me atravessa quando penso na estrada que fugimos, no sol que desbravamos, nas ondas que andamos. Para lá da espera que os pássaros sopravam de brilhos nos rochedos. Sequei-te, ao fim de horas, deitei-te, prometendo já não sei que palavras para o dia seguinte. Dormiste. E, mais uma vez, morri.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Entra em mim aos poucos, ilumina-me o caminho, enche-me páginas do corpo, cola-se-me à pele, abre-me espaços na mente, sugere-me formas de ver, revela-me discursos, propõe-me ideias, colmata-me lacunas, acende-me lembranças. Aprendo tanta coisa com a temperatura do livro que vou escrevendo...

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Que pensará uma criança quando assiste no seio da família a discussões protagonizadas pelas pessoas que mais ama e nas quais deposita maior confiança? Que medos sentirá quando se apercebe de que a sua segurança é posta em causa por desentendimentos, ameaças, desencontros, frustrações? Como fazia eu no tempo em que aconteceu comigo?

domingo, fevereiro 14, 2010

Agredir parece menos grave do que matar, mas tem consequências piores para a vítima. Quando agrido confronto outrem com a sua ausência de poder e tento ocupar o seu espaço no mundo, uma humilhação que, além de tudo, posso repetir. Ao matar, por outro lado, cometo um acto definitivo e libertador. “Não agredirás”, assim, deve substituir "não matarás" como imperativo ético primordial.

sábado, fevereiro 13, 2010

A humanidade deixará de viver na pré-história quando passar a contactar regularmente com civilizações residentes fora do sistema solar. A actual ignorância dos humanos sobre o cosmos faz lembrar o conhecimento nulo que as tribos primitivas tinham acerca do planeta Terra. Passaram milhares de anos e por aqui continuamos, pobres e sós.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Dou comigo a preparar-me para te ver assistir à minha morte. Não sei se LMP estará presente ou se nessa altura já terá partido. Vejo lágrimas de sorrisos derramando-se na tua face iluminada. Sabes, como eu, que não precisas de te pronunciar. O teu silêncio estridente são as palavras que levo nos olhos. Estarei contigo em todos os espaços pelo tempo fora.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Quando estou com LMP, mesmo que nada tenha para fazer, o seu nome é o único sítio que me resta. LMP é o caminho, a praia, o jardim, o restaurante, a casa, o reflexo, a igreja, o riso, o monte, a nuvem. Fala como as rosas e os seus passos têm a ligeireza das ideias que não param de brotar onde os ramos esgotam a paisagem.