quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Ter casa num sítio fixo e nela viver todos os dias, entrando e saindo a horas certas, é o mesmo que ter uma campa no cemitério, onde o horizonte se limita ao alcance dos pés e a humidade nos devora os sonhos de aventura e liberdade. Ter casa é não crescer, é não ver, é não compreender. É não fazer parte da imprevisibilidade que toca a Deus.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

As crianças levantam-se cedo da cama e atravessam a manhã fria para serem fechadas entre quatro paredes, onde lhes exercitam o cérebro com inutilidades. Podiam obter os mesmos resultados com jogos e brincadeiras saudáveis, com liberdade e criatividade. Porém, fazem-nas amargar na escola para que desde tenra idade se habituem à submissão.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Vivemos para resistir a uma sucessão de eventos que nos atingem. Sejam eles bons ou maus, atingem-nos precisamente para nos levar a resistir. Suportá-los é o dever que nos resta. Mas se fraquejarmos, se sucumbirmos de exaustão e desânimo, é a resistir que estamos ainda. Resistimos sempre. Até quando morremos. Sobretudo quando morremos.

domingo, fevereiro 07, 2010

A minha dor apoderou-se de mim de tal maneira que me habituei a gostar dela como de uma flor, de um dia solar, de uma ave dançando no caos. A minha dor foi-se instalando habilmente ao longo dos anos, ao ponto de se confundir com o meu corpo, a minha alma, o meu sangue. Passou a fazer parte de mim, do meu todo. Há dias em que chego a divertir-me com ela.

sábado, fevereiro 06, 2010

Quando tudo é sereno, ordeiro, controlado, não há espaço para a transparência da sensibilidade, para a explosão da inteligência, para a fúria do coração, para a derrocada da alma. É preciso que duas pessoas amigas se zanguem e se reconciliem para que salte à vista o sentimento que as une e o valor que cada uma reconhece à outra.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

A dor respeita sempre os limites do que podemos suportar em cada momento, para que a nossa resistência vá crescendo e adquira a capacidade de enfrentar outras dores maiores que não poderão deixar de surgir. No fim da linha, já não há dor para sentir, já não há sangue, nem agonia, nem lágrimas. Só pura visão do que nos acena...

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Vamos desaparecendo nos anos, aos poucos, para que o choque não seja brutal, para que tenhamos oportunidade de nos ir adaptando à inevitabilidade, para que a decadência não se faça notar muito na nossa contabilidade quotidiana, para que possamos ir corrigindo rotas e comportamentos, para que sejamos capazes de ir desvendando o incompreensível...

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

O sol a bater-me nos olhos enquanto conduzo por uma estrada que sobe e um trompete a tocar dentro do carro para que os sons me abalroem na manhã. Dá a ideia de que não fora o sol e o trompete não se faria ouvir. Viro à esquerda e dou-me conta de que a melodia vai ficando para trás, vai desaparecendo, como se a paisagem fosse engolindo o leitor de CDs.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Nada me custa mais do que ser acusado por EMR. Sei que o faz por amor, por ansiedade, por precipitação, por infantilidade, mas sempre que o faz sobe-me fogo à cabeça, reajo como se fosse uma pessoa adulta a julgar-me. Sei também que esta é uma forma de EMR afirmar a sua personalidade. Mas nem assim me conformo. Nem assim.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Era tudo verde à minha frente, à direita e à esquerda, um verde imenso só cortado a meio pela estrada serpenteante até perder de vista. E de súbito surge um carro – um carro verde quase luminoso – acelerando na paisagem em direcção a mim, com a convicção de quem possui a capacidade de estremecer a visão de alguém que esteja por ali a despedir-se da tarde. E eu estava.