terça-feira, novembro 10, 2009

São os palhaços da literatura. Os que passam o tempo em congressos, eventos, conferências, palestras, jantares, colóquios, júris de prémios, sessões de autógrafos. Os que falam a torto e a direito, de si, do que fizeram, do que vão fazer. Os que não prescindem de se mostrar, de opinar, de vergar. De matar, se preciso for.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Morremos tantas vezes ao longo da vida. Nascemos e morremos, estudamos e morremos, trabalhamos e morremos, procriamos e morremos, planeamos e morremos, morremos, morremos. E morremos tanto porque amamos muito, porque só amamos, porque amamos sempre.

domingo, novembro 08, 2009

Escrever é não dar contas a ninguém, é seguir um caminho, seja a que custo for, vigiando pelo canto do olho os que tomam rumos diferentes. Escrever é perguntar sempre, mesmo conhecendo as respostas, é ir mais fundo, mesmo quando nos dizem que o caminho é outro, mesmo quando nos demonstram que estamos a perder tempo…

sábado, novembro 07, 2009

E de repente algo me esmaga como um fósforo do tamanho da chuva. De um lado, EMR pede-me para voltar a aparecer antes de partir para França, do outro LMP quer saber do paradeiro de uns materiais que me deu para guardar há tempos. Oiço e não sei que pensar, não sei quem diz o quê, nem porque motivo.

sexta-feira, novembro 06, 2009

O tango nasceu da noite que deslizava nas margens, cresceu por entre iras refulgentes e distribuiu em redor horas de cegueira. Depois, veio o silêncio e o nada que havia para esclarecer, mas era ainda o seu movimento que nos endoidecia. O tango é o que há-de ficar depois de todos morrermos. Qual fogo eterno.

quinta-feira, novembro 05, 2009

O futuro está escrito nas sílabas do éter, com páginas desabridas correndo pela lembrança dos anos que me viram partir em lágrimas brilhantes na manhã pesada. Sento-me à mesa da primeira esplanada que encontro e espero que venha alguém inquirir sobre a razão de cada pensamento que vou enfileirando…

quarta-feira, novembro 04, 2009

Chovia e continuavas a morrer na tua campa, junto aos sons agudos do princípio de Novembro, como quem vive o silêncio das horas inteiras sob a terra fria, quando nada mais há para dizer, nem sequer o eco dos sinos naquela manhã sem nome em que te vi desaparecer por entre tábuas partidas e o som cavo da pedra deslizante.

terça-feira, novembro 03, 2009

Escrevi o nosso tempo de palavras translúcidas e buganvílias na superfície desembaciada do vidro por detrás do qual te inclinavas para ver o pássaro rasando as águas que regressavam da viagem em que a noite te levou nos sinais do vento construído com a matéria que nos explica e que pacientemente me balbuciavas ao ouvido...

segunda-feira, novembro 02, 2009

Quando a tela tombou e foi subitamente atravessada pela madeira aguçada dos pés da cama, eu já não tinha nada para sentir, protestar ou chorar. Limitei-me a olhar para a catástrofe e a dar-me conta de que algo em mim tinha acabado naquele instante preciso. Algo que vinha das chamas da noite e me impedia de ver o que estava para chegar.

domingo, novembro 01, 2009

Parecem ter mais de cinquenta anos e beijam-se à beira-mar, entre abraços e apertos ininterruptos. Rabo farto de um lado, barriga proeminente do outro, ao fim de poucos minutos, descolam e põem-se a andar, olhando em direcções diferentes e mantendo uma separação de mais de um metro de distância. Como se nunca se tivessem visto antes. Há ventania e garças deambulando nas alturas baixas.