sábado, outubro 10, 2009

Ontem, enganei-me na hora de ir buscar EMR à saída da escola. Depois de esperar por mim, em vão, durante algum tempo, EMR dirigiu-se ao emprego de MMR, mas deu com a porta fechada. Seguiu para o restaurante onde MMR costuma almoçar e só viu gente desconhecida. Em desespero, correu para um quiosque de rua e pediu ajuda, chorando convulsivamente.

sexta-feira, outubro 09, 2009

O kitsch das hortênsias pintadas numa tela fá-las mais hortênsias do que realmente são, fá-las mais brilhantes, mais impositivas, na sua ausência de cores fortes, rasgando a paisagem. Hortênsias são algodões saltitantes na ventania matinal, marcas de olhos apontadas, rastos de dedos amolecidos. Para que mais nada se saiba.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Será anunciado hoje o prémio Nobel da Literatura. Em nome de quê? Em nome do dinheiro (não há prémios em nome da Literatura). Sobretudo do dinheiro resultante da venda de muitos e muitos livros por esse mundo fora. Façanha de um comité que está longe de poder garantir a sua imunidade a interesses.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Um romance existe muito antes de ser escrito. Tem corpo e alma, consciência, sensibilidade, inteligência, narrativa, palavras, diálogos, entrecho, muito antes, sequer, de alguém adivinhar que um dia lhe caberá a tarefa de reproduzir o que um número infindável de vozes lhe irá sussurrando ao ouvido…

terça-feira, outubro 06, 2009

Não agredirás. Porque não consinto, porque estou aqui, porque haverá sempre algo a impedir o teu avanço. Ardo em febre, olhando-te para lá de códigos e medidas. Respiro a intenção que te adivinho e verifico o rasgão inexplicado no solo junto aos teus pés. Podias ter contado a dúvida que carregavas. Não precisavas de ter fugido.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Pensar confunde-nos com a água, faz-nos descer ao âmago sem regras, conduz-nos à claridade junto à qual as mãos prevêem a sombra, empurra-nos para lá da aflição, afasta-nos da terra e dos seus ardores sem motivo. Pensar é a descoberta do imenso obscuro. Qual mentira escrita sobre o papel que não chega.

domingo, outubro 04, 2009

Não dizer é uma possibilidade, uma dignidade. É o direito de ponderar, maturar, pesquisar, conjecturar. Para ir crescendo nos anos. Uma questão de aprofundamento das visões. Não dizer é comunicar connosco e, melhor ainda, com os outros. Sem palavras. Sem ruído. Para avançar no labirinto das inteligências sem nome.

sábado, outubro 03, 2009

LMP telefona-me e diz que esteve a falar com alguém que lhe lembrou que cada um vai morrendo à medida que os outros vão partindo deste mundo. O vazio causado pelo desaparecimento de familiares e amigos é o buraco que a mão da morte nos traça na alma. Depois, chega o dia em que já não há ninguém para se finar diante dos olhos com que nascemos…

sexta-feira, outubro 02, 2009

Vivo numa casa com uma placa a anunciar que está para venda. Na parede exterior há marcas de falta de tinta desde que lá embutiram uma caixa de correio. Por vezes, tocam na campainha, abro, mas não se vê ninguém. Para iludir o silêncio das noites, sintonizo uma estação de rádio e deixo-me adormecer ao som do que vai passando...

quinta-feira, outubro 01, 2009

Quando algo desaba há uma construção ao contrário que na sua perda de lógica leva tudo à frente, como um esplendor que parte em busca do nada, sem dar tempo de reflectir, nem de correr atrás de alguma coisa desaparecida no barulho monstruoso das ruínas amontoadas junto à reserva da consciência.