quinta-feira, setembro 10, 2009
Pode-se nascer, como se pode não nascer. Entre existir e não existir não vai diferença. Porque se existe sempre, mesmo quando não se nasce. Existe-se antes de ser, antes de estar, antes de pensar, antes de falar, antes de qualquer outra coisa. Existir é a mera possibilidade de materialização, enquanto ausência de fronteiras, conceitos, princípios, lógicas.
quarta-feira, setembro 09, 2009
Os sons redondos do mar que habitam em mim são pedaços de gente que sobreviveu à catástrofe de compreender, são discursos de almas, narrativas de corpos, que sobrevoaram o tempo adiado da vida. O que me chega de longe diz o silêncio escrito de cada dia, diz a palavra murmurada no sono, diz o gesto pressentido no olhar sem lógica.
terça-feira, setembro 08, 2009
segunda-feira, setembro 07, 2009
MC perguntou se quem me pôs no mundo ainda vivia. Respondi-lhe que não. Ao dizê-lo, baixei os olhos, para esconder o nó que senti na garganta. Foi como se as suas mortes tivessem ocorrido no dia anterior. Passaram mais de vinte anos e é tudo tão presente, tão próximo, tão palpável. Há pessoas que não morrem verdadeiramente.
domingo, setembro 06, 2009
LMP vai de viagem… e cada passo seu faz lembrar o tempo em que já terá partido. Volteia pela casa à procura de coisas para guardar na mala. Por vezes, detém-se, hesita com um par de sapatos na mão, calças, meias desencontradas, e protesta a meia voz sem que se perceba com quem. Os seus olhos somem-se no movimento das portas através das quais os quartos se vão paulatinamente esvaziando.
sábado, setembro 05, 2009
Na cidade vejo casas amontoadas, vejo ruas cruzando-se, vejo carros que passam, vejo pessoas sem nome, vejo tanto que não penso em mais nada, como se toda a existência se resumisse ao que os meus olhos alcançam. Na ilha, no recato dos dias e das noites, vejo tão nitidamente, vejo tão sem barreiras, que a lógica do mundo me cai inteira nos braços.
sexta-feira, setembro 04, 2009
Logo de manhã, abre a porta e ouve-se a sua voz cantante falando com este e com aquele. Depois, recolhe-se e vai tratar de assuntos seus. Mais tarde, volta a aparecer e volta a falar, acenando, rindo, combinando alguma tarefa. O seu coração vibrante dá alegria à rua. Quando se ausenta em viagem, a rua morre toda.
quinta-feira, setembro 03, 2009
quarta-feira, setembro 02, 2009
Sempre que partes algo morre em mim como um dia que anoitece porque as palavras se calaram rente às estrelas moribundas de sombra e medo. Partes e eu fico sem saber o que pensar do tempo que falta percorrer. Fico inerte, sem alento nem som, olhando os momentos que vivemos na tua infância. Como se cantasses na manhã do pássaro de vidro.
terça-feira, setembro 01, 2009
“És o meu amor de sempre e para sempre”, disse LMP, algum tempo após termos começado a relacionar-nos intimamente, com mais de cinquenta anos de idade, volvidos alguns casamentos fracassados. “Eu, o teu amor de sempre?”, perguntei, sem conseguir esconder a perplexidade. LMP respondeu-me com um sorriso tal que não me atrevi a insistir…
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