segunda-feira, agosto 10, 2009

O amor é mais do que o amor, mais do que um sentimento directo e específico por alguém, mais do que algo de que possamos ter consciência, mais do que somos capazes de dar ou receber. Nem sequer é um desejo. Muito menos é permutável. O amor é uma relação com o mundo. Uma relação com toda a gente em nós.

domingo, agosto 09, 2009

Passei os olhos pelas notícias e não me apeteceu sair do sítio onde me encontro. Tudo é mais calmo à minha volta quando não consumo a informação que todos os dias me entra em casa. Não perco grande coisa em ignorar as manchetes da imprensa e a abertura dos telejornais. A realidade palpável está sempre a acontecer em outro lado…

sábado, agosto 08, 2009

Abre a janela, deixa o vento entrar, deixa o azul chegar-nos aos pés, que talvez não esteja longe o dia de partirmos para qualquer sítio, com a nossa carga de sonhos, projectos, desencantos. Olha as nuvens baixas tocando a poeira do caminho em que nos perderemos. Mostra o teu rosto, chama por alguém que nos espere.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Quando me olham, noto que se interrogam sobre mim, que duvidam acerca de qualquer coisa, que hesitam em falar-me, que procuram uma resposta, que tentam adivinhar o que me passa pela cabeça, que se esforçam por me afastar da ideia, que talvez me relacionem com outra pessoa, que dali a breves segundos já me terão esquecido...

quinta-feira, agosto 06, 2009

Se eu pudesse, voava contigo nessa manhã de sol translúcido para desaparecer ao fim das colinas onde se repõe o canto dos pombos na manhã. Se eu pudesse, era música para te dançar em pontas, era água. E era vento que não tem onde acabar. Por ti, crescem os sons, desde o fundo da terra até à mão que liberto.

quarta-feira, agosto 05, 2009

E o teu vazio de pedra continua a rasgar a faca da minha alma. Quando as penas se desintegram nas horas de poeira desabando sobre a rotina. Caminhas no pássaro que seguirei até ao fim do sal nas águas. Adiante te encontrarei. Na senda dos espaços sem limite. Para que venhas sempre anoitecer com maçãs frescas de riso.

terça-feira, agosto 04, 2009

O Verão na praia faz-se de corpos flácidos e obesos, pernas com celulite e varizes, ventres volumosos, rabos bojudos, rugas curtidas, seios mirrados, pescoços de papeira, tornozelos inchados, testas franzidas, pregas nas cinturas, ombros vencidos. É o que vejo nos brilhos ondulantes do areal. Holotúrias desfalecendo na colisão da tarde.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Morre alguém e morre também algo em nós. Morre um bocado de qualquer coisa que se sentia: amizade, conhecimento, uma simples saudação de bom dia ou boa tarde. A nossa dimensão passa a ser mais reduzida. Lembro-me das tuas cinzas espalhadas na brisa daquele parque. Lembrar-me-ei sempre, apesar de nada haver de marcante entre nós. Só a tua existência. E a minha.

domingo, agosto 02, 2009

De súbito, ruiu a lógica em que sobrevivo: EMR saiu de casa, deixando coisas a pairar rente às paredes de sombra (uma camisa… uma peúga… o eco de uma gargalhada vinda do dia anterior). Percebi que não valia a pena fazer o que quer que fosse para recuperar a perda. Nem ao menos seguir com o olhar o rasto de EMR que, decerto, já se imaterializara na claridade da rua.

sábado, agosto 01, 2009

Em criança, ouvia falar na ponta da Ferraria e a minha cabeça entrava numa névoa que não percebia. À minha volta, juntavam-se caras de medo, sinais de perigo, visões de borrasca, olhares de aflição. “É o fim do mar”, explicava alguém, quase em lágrimas, provocando-me logo imaginações de barcos a afundar-se por entre ameaças sem igual.