segunda-feira, julho 20, 2009
Ó Pico das cancelas abandonadas, espiral dos homens sem rumo, guarda-me nos teus ossos para sempre como uma bênção, chora-me e ama-me, que eu não tenho terra, nem país, nem nacionalidade. Tu, Pico do meu sangue, do meu tremor, da minha certeza ardente no tecido do peito… e as tuas cagarras cantando as palavras que não sei dizer.
domingo, julho 19, 2009
Escrever para me compreender, para me descobrir, para me amparar. Escrever para me encontrar, para me deslindar, para me revelar, para me construir. Escrever para me cerzir, aos poucos, dia a dia, na grande manta de luz que vem do movimento infinito. Escrever para me calcular, para me estudar, para me adivinhar. O caminho que falta percorrer.
sábado, julho 18, 2009
O destino está escrito no rosto, nos olhos, na boca. É um brilho invisível que se aloja no rio dos dedos, um tempo sem fronteiras que nos encaminha por dentro de espaços indefinidos. O destino vive escondido sob as pedras rente ao sal das águas. Respira como os caranguejos. Escreve-se. Sem palavras.
sexta-feira, julho 17, 2009
O rosto da dor é um tecido de linhas espasmódicas, um momento de cratera sem fundo dentro do qual caímos para nos libertar, um ângulo aberto no silêncio das trovoadas. O rosto da dor não tem nome, nem cor, nem tempo. É uma forma de água que a planície transporta para além das barreiras em que nos deixámos prender. Uma febre que nos torna cúmplices.
quinta-feira, julho 16, 2009
O incontrolável em nós é a arte, a fome, o sono, o movimento, a guerra, o jogo, a sedução, o olhar, o corpo, a palavra, o sexo, o bronze, a roupa, a inteligência, o cálculo, o amor, o diálogo, a mágoa, a espada, a sensibilidade, a justificação, a impotência, a zanga, a discussão, a mentira, a fuga, a cobardia, a sinceridade, o instinto…
quarta-feira, julho 15, 2009
Somos insignificantes quando agimos como se fôssemos o centro de qualquer coisa. Somos insignificantes, até, quando agimos como se fôssemos alguma coisa. A verdade é que não somos nada nem ninguém. Por que nos haveriam de atribuir valor ou nexo? O nosso significado e mérito assentam no que fazemos quando temos apenas os outros como plano de vida.
terça-feira, julho 14, 2009
O mar não pergunta nem espera. Está sempre lá, onde tudo acontece, como uma cidade flutuante. As suas ondas são casas que habitamos, são nenúfares com rãs entregues nas mãos do destino. As rotas dos barcos desaguam no deserto. Sem explicações. O mar é o fundo de toda a gente. Não tem norte. Só gritos. Só morte.
segunda-feira, julho 13, 2009
As coisas existem a partir do momento em que são pensadas, ditas, escritas. E as pessoas também. Ou pelo menos passam a existir de outra forma: passam a somar o que já eram ao que se pensa, diz ou escreve sobre elas. Depois de pensadas, ditas ou escritas, as coisas e as pessoas dão origem a um mundo novo.
domingo, julho 12, 2009
Não existe o início do universo. Nem existirá o fim. Nem sequer existe um universo. Existem universos em número infinito, que estão em permanente explosão, em maior ou menor escala. Universos que o tempo não conta, nem o espaço alcança. Universos de dimensão indizível. Sons que a eternidade navega dentro de nós.
sábado, julho 11, 2009
Uma palavra quer dizer uma determinada coisa, mas por vezes basta mudar-lhe duas ou três letras e passa a ter um significado diferente. Outras vezes, basta mudar-lhe um acento. Isto demonstra que antes da mudança de duas ou três letras, ou de um simples acento, a palavra era mais do que parecia, tinha em si algo que superava o seu significado…
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