sexta-feira, julho 10, 2009

Por vezes, apetece-me viver de forma ligeira para não me deixar marcar. Viver a correr, viver à superfície, sem dar grande atenção ao que se passa. Não pensar como cheguei aqui, no que aconteceu ontem, ou há vinte anos, no que vai suceder amanhã, ou dentro de uma década. Mas pensar assim é admitir, afinal, a impossibilidade de uma vida ligeira…

quinta-feira, julho 09, 2009

Quando a maré baixa atinge os dias, como uma vida de pneus vazios, as coisas ganham uma nova coerência. A pele, a superfície da cor, a forma de pentear, a bainha de umas calças, uma frase interrompida, o sentido daquele olhar há tanto tempo. Dizem-nos segredos ao ouvido e os intervalos entre as palavras conduzem a novas frases, novos significados…

quarta-feira, julho 08, 2009

Quando falas, há uma organização lógica que vem à superfície das coisas. Os cantos da realidade ocupam o seu lugar, sem margem de discussão ou de dúvida, como se a natureza te ouvisse, como se os vulcões. Falas e tudo ganha uma evidência que sempre lá esteve, mas de que só então nos damos consciência. Como se na tua boca residisse o instinto da criação.

terça-feira, julho 07, 2009

Esta família, meu amor, que tu abraças, a que te juntas, para a qual corres, é o novo mundo que tenho para te dar. Acabamos no Pico, onde te esperam sombras de baleeiros e risos na noite sem giz no asfalto. Corre, meu amor, corre sempre, com os olhos na espuma do arpão, que as estrelas te hão-de proteger quando atingires o horizonte em que me dissipo.

segunda-feira, julho 06, 2009

Quem não vive a experiência do amor pleno não chega a ser completamente pessoa porque lhe falta a dimensão do outro que há em si. Sem essa noção do outro, transforma-se num ser amputado que se arrasta pelos dias, como um cão perdido do dono por ruas e becos. Um ser inútil. Corpo sem interesse, sem fulgor, sem mar.

domingo, julho 05, 2009

“O tempo que passou…”, disse AML. Mas disse-o com uma voz que fez o tempo passar de novo como se fosse a primeira vez. Ao dizer “o tempo que passou…” queria dizer toda a gente que encheu os seus dias de desilusão, perda, alegria, sonho, traição, dor. Depois, não disse mais nada. E olhou em frente, como se o tempo todo passasse ainda mais uma vez…

sábado, julho 04, 2009

Não sou apenas homem, nem apenas mulher. Sou ambos. Sou muitos em mim. Gente que clama por viver nos meus actos e pensamentos, nos meus planos, pesquisas, métodos, gestos menos perceptíveis. Caminho nos passos dos outros, visto as suas roupas, falo as suas línguas, vislumbro paisagens de alma nos seus olhos. Sou por inteiro em cada nome que se perde no futuro.

sexta-feira, julho 03, 2009

A escrita salva-nos, faz-nos corpo, faz-nos alma, endurece-nos, torna-nos sensíveis, obriga-nos a pensar, imaginar, planear, desejar. A escrita vem de onde não esperamos, dá-nos o braço, afaga-nos, aperta-nos contra o peito e sussurra-nos palavras que abrem caminhos. A escrita é o amor universal.

quinta-feira, julho 02, 2009

Morrer para compreender sem limites, para passar a fronteira proibida, para abandonar a multidão das vidas. Morrer para começar de novo, para descobrir o tempo aberto no fim das trevas. Morrer para ficar só diante do espelho e estender a mão que o há-de desembaciar até sentir a eternidade na ponta dos dedos.

quarta-feira, julho 01, 2009

Longe o grito, o lamento, a ferida. Longe o tempo do inexplicável, o tempo do medo. Longe a sombra da caverna, a mão de cinza, o eco do galope sob o qual desaparecemos. Longe a paixão, longe a súplica, longe o caminho da multidão despovoada de sonhos. Perto, só o verde chamejante que transbordas. O assobio dos teus olhos.