quarta-feira, junho 10, 2009

Quando não há nada melhor do que a monotonia, a monotonia é boa porque nos dá a certeza do lugar que ocupamos, nos sugere formas de gerir as situações e nos permite controlar o tempo de que dispomos. A monotonia permite-nos imaginar coisas, sobretudo preparar o momento do regresso à vertigem da imprevisibilidade.

terça-feira, junho 09, 2009

Preparo-me para entrar no duche, de manhã, e por entre o jacto da água vejo EMR divertindo-se, com a sua voz saltitante, os seus movimentos enérgicos e expansivos. Faz sol e há gritos de alegria que enchem o dia de astros buliçosos. Ensaboo-me, esfrego-me, tento esquecer que estou há dias sem ver EMR. Mas o acabrunhamento acompanhar-me-á durante horas.

segunda-feira, junho 08, 2009

Numa rua de Toulouse, à porta de uma loja de música, deixo-me ficar a ouvir aquela voz cantante. Não desando dali. Não tenho hipóteses. Como se a cidade subitamente se me tivesse colado aos pés. Do que oiço, só compreendo alguns termos. Mas suficientes para me deixar invadir por uma melodia sinuosa, que me faz em estilhaços e me leva a divagar por todo o lado.

domingo, junho 07, 2009

O amor não tem limites. Nem pode ter. Se tivesse limites, não seria amor. Seria outra coisa. E o amor não pode ser outra coisa. Só pode ser amor e mais nada. Não se sabe onde começa nem acaba. Nem de que tamanho é. O amor acontece para lá da imaginação, do sonho, do desejo. É a loucura branda de não ter nada fora do sítio.

sábado, junho 06, 2009

Oito pessoas numa sala e só se ouve o barulho de máquinas na rua. Há olhares baixos, rostos fechados, mãos sossegadas, tensas, que a luz de uma porta envidraçada realça. Percebe-se que toda a gente pensa no mesmo. Seria dificilmente explicável que assim não fosse. Quando as máquinas se calarem, as lágrimas apressar-se-ão a desabar.

sexta-feira, junho 05, 2009

Num grupo, numa multidão, cada pessoa sente de uma determinada maneira, o que dá a cada instante um sentido multiplicado por muitos, uma vibração de alcance imprevisível, uma presença de expectativas desenfreadas. E a diferença não é grande quando se está só. Porque cada pessoa, acompanhada ou não, está sempre em confronto com o que há de mais em si.

quinta-feira, junho 04, 2009

O meu coração dividido entre os pássaros e o fogo cerzindo a mão, o meu rosto desencontrado das pombas no Rossio quando os barcos cedem na margem do destino, os meus olhos fustigados pela névoa que a dança das formigas devora, o meu peito, o meu sonho, o meu regresso ao sinal da pedra lisa.

quarta-feira, junho 03, 2009

A noite enche-se com a viola de P.Metheny, enquanto oiço ao telefone as lágrimas cristalinas de EMR, por causa de B., que está a ficar irreconhecível devido à perda de pêlo. Por entre guitarradas de choro que me chegam de toda a parte, digo que B. vai ter um pêlo novo. EMR acalma e, logo a seguir, Metheny também. O silêncio dói no fim.

terça-feira, junho 02, 2009

A generalidade das pessoas fala umas das outras, fala de coisas, fala de quê? Fala do cão, do gato, de dinheiro, de assuntos do género. Fala do que vê, do que ouve, do que sente, do que causa incómodo ou alegria. Não fala de ideias, não discute Deus, nem operações matemáticas, nem frases poéticas - muito menos a vida íntima das galáxias.

segunda-feira, junho 01, 2009

O livro em papel acabará como acabaram diversos suportes de escrita em outros momentos da história. Mas quem está a fazer tudo para que o seu desaparecimento ocorra quanto antes são os editores: o que publicam só pode ser parte de um "plano secreto" para levar os leitores a migrarem rapidamente para o suporte digital, cujos custos de produção são bastante menores...