domingo, maio 10, 2009

O futuro é sempre previsível, demasiado previsível (é apenas o resultado do que fazemos no presente). Muitas vezes, nós é que não queremos enfrentar o que se impõe ante os nossos olhos sem contemplação. É tal a crueza do devir que não suportamos observá-lo. Vai daí, desviamos o rosto para o lado e dizemos que é impossível saber o que nos espera.

sábado, maio 09, 2009

Num centro comercial, encontraram-se, abraçaram-se, saltaram, riram, falaram ao mesmo tempo, até guincharam. Depois, encostaram-se a uma mesa e ficaram ali a olhar-se, a rir, a contar coisas, a repetir, a perguntar, a explicar o que tinham feito, por onde andavam. Tinham vinte e tal, talvez, trinta anos. Combinaram qualquer coisa para o serão daquele mesmo dia. E separaram-se. Prosseguindo o seu caminho com a felicidade estampada nos rostos.

sexta-feira, maio 08, 2009

Tinha uma perna mais curta do que a outra, mas não sentia que isso fizesse grande diferença. Ia às compras, trabalhava, passeava na rua e na praia, saía à noite, divertia-se. As multidões estavam tão ocupadas no dia a dia que não haviam de ter tempo de se aperceber quem tinha um centímetro a mais ou a menos numa perna, num braço, num dedo. A muita gente, havia mesmo de parecer que manquejar não diferia assim tanto da forma como a maioria das pessoas se deslocava...

quinta-feira, maio 07, 2009

Oiço música do outro lado da janela. Não sei se violino, se flauta, ou qualquer coisa semelhante a piano. O que sei é que me vem de longe e que entra em mim, enche a minha casa como um vento bom que aquece e não larga. Música sem nome, sem dono, sem direcção, que corre por todo o lado como uma estado de alma, uma forma de ser. Música ou coisa que nunca começou, que não se sabe quem toca nem concebeu.

quarta-feira, maio 06, 2009

E de repente dou-me conta de que as ruas das cidades são mesmo suspensas, como escreve Saul Bellow em Herzog. Sempre suspensas no seu horror à lógica. Para que não se justifique acrescentar o que quer que seja à realidade. E assim se explique a leveza com que as coisas explodem à sombra dos arranha-céus em cujos subterrâneos fosforescentes as multidões desabam sob o impulso de uma velocidade feliz.

terça-feira, maio 05, 2009

As rugas, a alteração das formas, a submissão ao vivido, o peso da memória, o desaparecimento progressivo das ilusões, a diminuição do brilho nos olhos, a curva das costas, o cabelo ralo, a voz abafada e tremida, a menor firmeza nas mãos, a quebra progressiva do número de amizades, os serões com pouco que fazer, a campainha da porta sem tocar, o não saber quando será o último dia…

segunda-feira, maio 04, 2009

E chegou o dia em que nada tivemos para dizer. Mesmo nada. O silêncio passou a explicar a plenitude das nossas almas. No momento em que nos encarámos, vimos logo que a distância estava irremediavelmente instalada. Percebemos que não voltaríamos a telefonar, nem a combinar almoços, nem a frequentar festas de aniversário, nem a passar serões que só acabavam de madrugada. Morremos. Sem causa aparente.

domingo, maio 03, 2009

Nada tem contornos. Tudo está em tudo. O movimento de que todas as coisas são feitas retira-lhes qualquer possibilidade de terem fronteiras fixas e legíveis (os contornos que vemos nas pessoas e nos objectos são mera ilusão de óptica). Cada ser e cada coisa é sempre mais do que parece, tem sempre um suplemento de existência que não é detectável pela observação e que se localiza nas zonas de interpenetração e interacção com a restante matéria.

sábado, maio 02, 2009

“A literatura é a única arte que tem a capacidade de analisar e explicar todas as outras”, dizia AM, enquanto jantávamos num acolhedor bar junto à praia, por entre pratos e televisores ruidosos. É a única que tem poder para sistematizar de forma lógica o que nos rodeia, é a única vocacionada para exprimir o pensamento com coerência, é a única que consegue ser integral e puramente racional.

sexta-feira, maio 01, 2009

Respirar na escrita, viver na escrita, pensar na escrita, fazer tudo na escrita, deixar-se dominar pela racionalidade e organização da escrita, dormir na escrita, entregar-se sem limites à escrita, comer à sua mesa, analisar os acontecimentos à luz da escrita, decidir conforme as suas regras, questioná-la, inquietá-la, pressioná-la, aderir à febre da escrita, não recear as surpresas do caminho a que conduz...