segunda-feira, abril 20, 2009

Ontem, quando passeava de carro na brisa ventosa de domingo de manhã, entre Ribeira Grande e Pico da Pedra, ocorreu-me uma ideia que me pareceu digna de escrever no tempo. Um pensamento capaz de superar todas as circunstâncias. Depois de chegar a casa, escrevi a frase neste blogue e programei-a para ser publicada a 1 de Janeiro de 2100, às 10h00.

domingo, abril 19, 2009

O “eu” é a minha consciência individual, restrita, confinada, enquanto o “outro” é a minha consciência maior, aberta, abrangente. Sem o outro, não posso conhecer-me, não posso decidir-me, pensar-me ou revelar-me. É a consciência maior proporcionada pelo outro que me fundamenta como pessoa, me torna responsável e me posiciona no mundo.

sábado, abril 18, 2009

É no rosto que tudo acontece: o susto, o medo, a surpresa, a alegria, o cálculo, o sofrimento, a realização, o desejo. É o rosto que transporta as dúvidas, as interrogações, os pressentimentos, as desavenças, as contrariedades, as inibições. É no rosto que tudo se esconde e se revela. Para de novo se esconder. Ou revelar.

sexta-feira, abril 17, 2009

Mar, campos verdes, nuvens baixas, árvores despidas, cheiro a cão e galinhas salpicando a paisagem, tudo faz parte de mim. Até a sombra escorregadia e disforme, mistério de calor sem origem, preces ouvidas de madrugada. Entram-me em casa, sorrateiras, ameaças esguias, deslizando na penumbra rente às vidraças. Almas desavindas para me cercar.

quinta-feira, abril 16, 2009

A paz vem de um mar que bate eternamente contra as pedras, vem da montanha do Pico, lá em cima no chão da alma, no abismo dos pensamentos menos prováveis. Não há nada que perturbe o mistério da vertigem, a neblina dos átomos no infinito, o ruir do tempo a cada instante por entre os olhos caídos da memória por contar.

quarta-feira, abril 15, 2009

Como superar a banalidade das palavras? Como aumentar-lhes o sentido para além do sentido que têm? Por onde andarão antes de serem escritas? E depois de serem lidas? Que valerão as palavras que ninguém usa? E as muito usadas? Cansar-se-ão? Haverá zangas e amuos entre elas? Como fazer perguntas sem recorrer ao seu uso?

terça-feira, abril 14, 2009

Morrerei quando Lisboa morrer, cansada de luz, palavras barrocas, comboios de vento, pombos a arder. Morrerei com Lisboa, mais o seu rumor brando em dias de sol. Morrerei, de voz perdida, no dia em que Lisboa desabar por entre fúrias sem causa sepultadas no Tejo. Morrerei Lisboa duas vezes. E morrerei.

segunda-feira, abril 13, 2009

Teimam em permanecer junto de nós como as plantas, a chuva, as casas antigas, os insectos. Não são visíveis, vagueiam talvez nos fundos da terra ou pairam nos altos do fogo, mas continuam presentes, são palpáveis e concretos nas nossas vidas, acompanham-nos para todo o lado. Não interessa se falam, ou se fazem silêncio. Estão aqui, agora, sempre. São indiscutíveis.

domingo, abril 12, 2009

Descem sobre mim em bandos de negro e debicam-me, devoram-me, em fúrias tresloucadas de vingança. Esvoaçam, saboreiam-me, discutem-me nas suas rotas de céu descarnado. Fico em transe, ao sol, morrendo em partes, em tiras e fios de sangue sobre a poeira. E por cada pedaço de mim que se desfaz há um tempo novo que começa.

sábado, abril 11, 2009

À medida que os dias vão passando, o que nos une torna-se cada vez mais denso de leveza. As brechas entre os poros vão desaparecendo. Entre os braços, as bocas, os ouvidos, os narizes, os dedos, os olhos. Olho-te e vejo-me com outro cabelo, outro rosto, mas sempre eu, sob um sol intenso. E contigo deve acontecer o mesmo. Está no teu sorriso.