sexta-feira, abril 10, 2009

As águas do futuro inundam o fogo da terra em nome do Deus cósmico que nasceu das brumas e se refez em átomos sobre as planícies sem fim quando andávamos de mão dada à procura dos sons da infância vindos de fundos incalculáveis e tudo era névoa e cor e paz inquietante, até desaparecermos além para regressar.

quinta-feira, abril 09, 2009

Há sempre um prazer maior à nossa espera porque há sempre uma dor maior algures à nossa espera. Não há forma de experimentar um prazer maior sem antes atravessar uma dor maior. E não há forma de escapar com um prazer maior sem depois sucumbir a uma dor maior. Sobre a qual o ciclo se refaz. Para que prazer e dor jamais se esgotem.

quarta-feira, abril 08, 2009

Quem vê passar uma pessoa idosa não imagina a dor que vai no seu íntimo. Não imagina o somatório de desencantos e humilhações de que se fez a sua existência. Viu de certeza morrer familiares, amigos, colegas e sabe que deve preparar-se para o dia em que chegará a sua vez. Talvez por isso prefira nem se aproximar dos que mais ama, a fim de sofrer menos na hora da partida…

terça-feira, abril 07, 2009

E.M. perguntou-me, por diversas vezes, hoje, qual tinha sido o dia mais feliz da minha vida. Respondi-lhe que tinha sido o dia do seu nascimento. Insistiu para que eu indicasse outro, mas não consegui. O dia em que veio ao mundo foi, que me recorde, o único em que não senti qualquer brecha, lapso, vazio, hesitação, sombra. Foi o dia íntegro da plena luz solar.

segunda-feira, abril 06, 2009

Porque a família não tinha dinheiro para o seu sustento, foi parar a casa de alguém que prometeu empenhar-se na sua educação. Aos dez anos, desistiu de estudar e passou a prestar serviço doméstico a troco de cama e comida. Nunca casou. Com o tempo, tornou-se indispensável. De uma fidelidade canina. Viu morrer toda a gente na casa. E lá morreu também.

domingo, abril 05, 2009

A voz enovelava-se-me em fios, emoções, ideias. E quando ouvia alguém falar, tudo à minha volta ainda mais se emaranhava, numa infindável quantidade de relações que me embrenhavam e desnudavam. Fui-me tornando incapaz de dizer fosse o que fosse. O ruído dos outros bastava-me. A escrita surgiu como forma de resolver assuntos comigo.

sábado, abril 04, 2009

“Quando em jovem ia na rua, as pessoas olhavam-me como se algo de errado se passasse comigo”, dizia-me há dias AGM, com um olhar tão magoado que até parecia que o sangue lhe saltava dos olhos. Já não tinha, decerto, mais lágrimas para chorar. “Havia gente que me apontava e insultava. Por isso me tornei no que sou hoje. Sou como sou para me defender dos ataques de que era alvo”.

sexta-feira, abril 03, 2009

O universo não tem dimensão. Como tal não é mensurável. O que procuramos medir é apenas o espaço ilusório que o movimento provoca. Se tudo está em constante movimento e mutação, não se justifica que a matéria seja delimitada, fixa, permanente. O que os nossos olhos alcançam e a nossa mente tenta compreender são expressões efémeras da realidade absoluta que é a vertigem cósmica.

quinta-feira, abril 02, 2009

No momento em que fiz um breve compasso de espera antes de atravessar a passadeira para peões, reparei numa pessoa que varria a rua e que teve o cuidado de se desviar e se deter para não importunar os meus passos, quase conseguindo dar a ideia de não estar ali, para que todo o caminho me pertencesse. Aconteceu há algum tempo, mas ainda hoje me faço acompanhar pelo seu rosto magro, introspectivo, cabisbaixo.

quarta-feira, abril 01, 2009

Olhei para duas pessoas que estavam paradas junto de um carro na rua e, de repente, ao observar as calças de uma delas e a maneira como estavam usadas e surradas, dei comigo a reflectir sobre mim e sobre a minha forma de estar na vida, as minhas contradições e o modo como fui agindo e reagindo ao longo dos anos. A seguir, desatou a chover, meti-me em casa e não pensei mais nada.