sexta-feira, março 20, 2009

Há dias em que apenas me apetece dizer que deites a cabeça no meu colo e não penses mais, não te aflijas, não faças contas, não te exaltes. Sobretudo, não olhes para a cor do tempo que se aproxima. Isto enquanto o sol vai molhando as casas em volta com beijos inexplicados e arbitrários. E adormeces. Comigo a imaginar o que falta acontecer e que não terás oportunidade de testemunhar.

quinta-feira, março 19, 2009

Vens na minha direcção com um brilho na face e uma flor na mão que acabaste de compor com a empregada de um quiosque de hipermercado. Tens o cabelo preso no lado direito da cabeça, trazes um casaco desportivo azul sobre uma camisa escura. Olhas em todas as direcções, embora eu saiba que nada procuras. Creio que não me vês. Volto a observar a foto, para estar mais perto de ti…

quarta-feira, março 18, 2009

Eu sabia que tinha de escrever isto enquanto cantavas e choravas ao mesmo tempo dançando na rua da minha infância que todos os olhos viram passar e disseram que não me perdoavas e acreditei quando vi o movimento dos teus dedos sobre a faca apontada ao meu coração e foi nessa altura que fiquei sem respirar porque sabia que tinha chegado a minha hora e era verdade.

terça-feira, março 17, 2009

Hoje é o dia da tua partida. Todos os anos nesta hora. Mas nem assim sais de ao pé de mim. Pelo contrário, de cada vez que partes, os teus contornos tornam-se mais nítidos, mais expressivos. Ainda oiço as tuas palavras de súplica, como um rumor passando diante dos olhos. Não soube o que fazer para te salvar. E fugiste-me por entre as mãos.

segunda-feira, março 16, 2009

Como pode Deus existir em Barcelona? Como pode existir em Tóquio ou no Rio de Janeiro? Deus só pode acontecer na tranquilidade dos jardins e das maresias, só pode estar em repouso no silêncio das vidas. Deus não quer saber de cidades, onde abundam carnificinas, choques de automóveis e pessoas à espera de ver cair mais uma torre…

domingo, março 15, 2009

Lisboa tem a luz e tem os reflexos da luz e tem o ar de cidade cansada de si mesma e tem a cabeça metida entre as pernas e tem os olhos fechados para dentro da memória e tem vozes silenciadas na sombra dos edifícios e tem um buraco sem cor no lugar do poema que deixou cair à beira do Tejo.

sábado, março 14, 2009

No aeroporto de Lisboa, estava um grupo de pessoas sentadas a uma mesa e uma delas mostrava às outras o seu computador portátil, segurando-o com a mão direita, volteando-o e exibindo-o, enquanto o afagava com a mão esquerda, delicadamente, como se o aparelho pudesse ter consciência da atenção que lhe era dispensada ou dos sentimentos que por ele nutriam...

sexta-feira, março 13, 2009

Eu conduzia autocarros por profissão e passava as noites acelerando nas ruas da cidade. Via entrar e sair gente, ensonada, aos tombos, a rir. Um dia, entrou alguém, que se deixou ficar, a meu lado, sem dizer palavra. Reparei que não mostrara bilhete, nem passe, mas não dei importância. Continuei a avançar por entre prédios e sombras, enquanto ouvia bater aquele coração...

quinta-feira, março 12, 2009

Trabalho ao pé de uma janela virada para o Atlântico. Tudo é Norte à minha frente. A grande extensão das paisagens que não terminam. Vejo sons de planetas rodando no tempo, trombetas atingindo o coração dos ventos. De súbito, no piso de baixo, alguém chama por mim. Ter-me-ei esquecido de baixar o volume do aparelho de rádio?

quarta-feira, março 11, 2009

Olhei e vi água caindo sobre o teu corpo que se afastava na noite. Água nos meus olhos que te acompanhavam, enquanto ias desaparecendo. Voltaste-te e disseste algo que se perdeu no frio. Deve ter sido qualquer coisa para me confortar. Em pé, na rua, eu acenava-te… procurando detectar o contorno dos teus últimos brilhos.