terça-feira, agosto 10, 2010

ESTIVE A ESCREVER um texto para o conjunto a que dou o nome de Digressão e preocupou-me a facilidade com que as palavras me saíam dos dedos. Um texto repentino, sem emendas, lógico, aberto, dúbio, cuja ideia principal eu havia anotado poucos minutos antes e que nem imaginava por que ângulo devia abordar. Bastou-me começá-lo…

segunda-feira, agosto 09, 2010

VOU ESTUDAR todo o dia, como se não houvesse luz exterior nem olhares para a janela onde corre a vida de todos os momentos. Nada me deterá. Nenhum fluxo, nenhuma ordem, nenhum receio, nenhum convite. Sinto a completa proteção que me cabe neste Verão inquieto de claridades bruscas e ventos fugazes. Para que a noite me venha servir o jantar rente ao sal das pedras.

domingo, agosto 08, 2010

HOUVE UM TEMPO em que pensei escapar à realidade pela escrita, abrindo espaço à ficção pura. Desatei a escrever na tentativa de demonstrar a plausibilidade dessa via. Durante anos, alimentei-me dos seus desafios, surpresas, dificuldades. Por fim, compreendi que a única realidade existente era a das palavras que escrevemos. Sem possibilidade de fuga.

sábado, agosto 07, 2010

DEVO AUSENTAR-ME antes que o céu caia sobre as palavras que anunciam a tempestade em que me debato desde a nascença. Para começar de novo no âmago das visões com a liberdade comprazendo-se. Antes que me atinjam no silêncio das noites por dentro do qual a eternidade se vai formulando…

sexta-feira, agosto 06, 2010

SEPARAÇÃO é dor, é perder metade do que havia em nós. É não ter porto, nem meio para chegar adiante. É cair, aos tropeções, de rosto ferido e inchado, não podendo dizer “bom dia” ou “até amanhã”. Corpo transido, vergado, como acordar sem forma na língua de um país que não nos viu nascer.

quinta-feira, agosto 05, 2010

QUANDO VIAJO NÃO ESTOU em parte alguma. Fico em suspensão entre um sítio e outro. Posso parar e decidir fazer outra coisa, mas se assim proceder deixarei de estar em movimento para me ocupar de qualquer assunto diverso do inicial. Quando vou de viagem, nada me perturba porque não ocupo nome nem espaço.

quarta-feira, agosto 04, 2010

VAI ALGUÉM PELA RUA em direção a algum lugar. Pensa, sente, tem medos, alimenta esperanças, embora não transpareça uma mosca no acerto dos seus passos. Em toda a parte, há milhões de pessoas seguindo para algum sítio, com algum objetivo, alguma ideia, algum sonho. E ninguém alguma vez imaginará o contorno dos seus mundos imensos.

terça-feira, agosto 03, 2010

ENQUANTO ESCREVO, devora o alimento que lhe pus à disposição, olhando-me de soslaio por um breve momento como se pretendesse captar a eternidade de que fazemos parte. O seu olhar de viés há de acompanhar-me por todas as viagens em que carregarei na consciência o peso de que não falo.

segunda-feira, agosto 02, 2010

ERA UMA RUA estreita, ligeiramente curvada, com casas pequenas e uma igreja ao fundo acinzentando a tarde. Alguém falava na direção de uma cabeça e de um torso debruçado numa janela alta, entre risos e gestos. Depois, quem estava na rua encostou-se à parede, pôs-se em pontas de pés e trepou até colar a sua boca à boca que esperava em cima.

domingo, agosto 01, 2010

LOGO À NOITE, sonharei que vou pelo mundo fora, com uma ou duas pessoas amigas, de mochila às costas, como quem segue a pé, sem planos, sem percursos pré-definidos, sem curiosidades específicas. Só viajar de acordo com a inclinação das nuvens, com os impulsos do sol e das tempestades. Viajar com os olhos imersos nas cidades esquecidas.